Veículos elétricos: do risco do produto à infraestrutura

O avanço dos veículos elétricos trouxe um novo elemento para o cotidiano dos condomínios. Com ele, surgem dúvidas legítimas e também uma quantidade significativa de opiniões sem base técnica.

É comum ouvir preocupações sobre baterias, incêndios e segurança em garagens. No entanto, quando o tema é analisado sob a ótica da engenharia, percebe-se que o ponto central da discussão não está exatamente onde muitos imaginam. Existe um aspecto fundamental que precisa ser compreendido: o risco não desaparece, ele muda de lugar. Ou, de forma mais direta: o risco migra do produto para a infraestrutura.


O veículo não é o problema

Antes de qualquer análise, é importante reconhecer que o veículo elétrico é um produto regulamentado. Assim como veículos a combustão, ele passa por processos rigorosos de homologação, com ensaios elétricos, térmicos e de segurança. Esses processos são conduzidos por organismos competentes, com base em normas técnicas nacionais e internacionais.

Isso significa que a discussão sobre “se o carro é seguro” não deve ser tratada no campo da opinião. Não se trata de ausência de risco, mas de um risco já estudado, conhecido e considerado aceitável dentro de critérios técnicos.


Risco existe e sempre existiu

A presença de risco não é novidade: combustíveis líquidos são inflamáveis, instalações elétricas envolvem energia, equipamentos mecânicos podem falhar. A engenharia não elimina o risco. Ela o reconhece e o reduz.

Esse conceito está presente, por exemplo, na ABNT NBR 5419, que trata da proteção contra descargas atmosféricas: o risco é analisado e medidas são adotadas para sua mitigação.

Com veículos elétricos, o raciocínio é exatamente o mesmo.


O verdadeiro ponto crítico: a infraestrutura

Quando um veículo elétrico passa a fazer parte do condomínio, o risco deixa de estar concentrado no produto e passa a depender da edificação.

É aqui que a discussão precisa ser reposicionada.

Não se trata apenas de instalar um carregador. Trata-se de adaptar a infraestrutura com critérios técnicos.

Na parte elétrica, essa necessidade é clara. A ABNT NBR 5410 estabelece como objetivo da instalação:

garantir a segurança de pessoas e animais, o funcionamento adequado da instalação e a conservação dos bens.

Isso significa que qualquer nova carga relevante deve ser analisada dentro do sistema como um todo.

Mas a infraestrutura não é apenas elétrica.


A infraestrutura civil: um tema em evolução no Brasil

Além da parte elétrica, surgem questionamentos sobre o próprio ambiente onde a recarga ocorre. Passaram a fazer parte das discussões técnicas aspectos como: localização do ponto de recarga, proximidade de acessos e rotas de fuga, ventilação do ambiente, características da garagem (aberta, fechada, subsolo, sistemas de detecção e combate a incêndio etc.

No Brasil, esses temas ainda não estão consolidados em uma norma única e específica para veículos elétricos. O que existe hoje é um conjunto de diretrizes que vêm sendo tratadas principalmente por:

  • normas gerais de segurança e instalações
  • exigências dos Corpos de Bombeiros (que variam por estado)
  • análises técnicas específicas de cada edificação

Ou seja: a infraestrutura civil está em processo de adaptação normativa.

Isso não significa ausência de critério. Significa que o tema está sendo estruturado com base em engenharia, e não em regras genéricas.


Como outros países tratam o tema

Em países como a Alemanha, onde a adoção de veículos elétricos está mais avançada, o tratamento do assunto é bastante objetivo.

Entidades como a VDE (Verband der Elektrotechnik) e o DIN (Deutsches Institut für Normung) tratam a infraestrutura de recarga dentro de normas específicas, como a DIN VDE 0100-722.

O foco técnico não está na proibição do uso. Está na adequação da infraestrutura. A análise não é baseada em “pode ou não pode”, mas em:

  • condições do ambiente
  • capacidade da instalação
  • medidas de proteção adotadas

Mesmo a questão de incêndio é tratada com base técnica. Estudos de entidades como o ADAC indicam que a incidência de incêndios em veículos elétricos não é superior à de veículos convencionais, embora o comportamento seja diferente e exija abordagem adequada. Em síntese: não se elimina o risco, se gerencia o risco.


O erro mais comum nas discussões

Hoje, é comum observar uma confusão entre níveis de análise. O risco do produto (o veículo) é misturado com o risco da instalação. E isso leva a conclusões equivocadas. Ou se trata o tema como algo trivial, ou como algo perigoso por definição e nenhuma dessas abordagens é técnica.


O papel das edificações

Diante desse cenário, o caminho não é proibir nem liberar indiscriminadamente.

É adotar critério técnico e isso envolve:

  • avaliação da capacidade elétrica
  • análise das condições do ambiente
  • definição de limites e diretrizes
  • atendimento às normas aplicáveis
  • participação de profissional habilitado

Na prática, trata-se de um projeto, não de uma decisão simples.


Conclusão

A chegada dos veículos elétricos não criou um problema novo.

Criou uma nova condição técnica.

O risco não desapareceu.

Ele foi deslocado. Sai do produto e passa a depender da infraestrutura.

E essa infraestrutura, elétrica e civil, precisa ser analisada, adaptada e, em alguns casos, redesenhada.

Ignorar isso é tão inadequado quanto tratar o tema com medo.

A engenharia oferece um caminho mais sólido: compreender o risco, avaliar o contexto e aplicar as medidas necessárias. Porque, no fim, a questão não é se o veículo elétrico é seguro. A questão é se a edificação está preparada para recebê-lo.


Luiz Meirelles, engenheiro eletricista, diretor e responsável técnico da TURIAM. Possui diversas especializações em baixa e média tensão e mais de 20 anos de experiência em gestão de negócios nos setores de engenharia e construção.

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