Nos últimos anos, muitos condomínios passaram a conviver com um fenômeno novo: a introdução de cargas elétricas que não estavam previstas no projeto original da edificação. Os exemplos mais comuns são a instalação de aparelhos de ar-condicionado e, mais recentemente, os carregadores para veículos elétricos.
À primeira vista, pode parecer apenas mais um equipamento ligado na tomada. Na prática, trata-se de uma mudança relevante no perfil de consumo do condomínio, com impactos técnicos, normativos e até jurídicos que não podem ser ignorados.
Este artigo tem como objetivo explicar esse tema de forma clara, sem jargões técnicos, mas com base em critérios de engenharia e nas normas que regem as instalações elétricas no Brasil.
Potência, consumo e demanda: conceitos diferentes
Um erro comum é tratar potência, consumo e demanda como se fossem a mesma coisa. Eles não são.
- Potência é o “tamanho” do equipamento, normalmente indicado em watts ou quilowatts (kW).
- Consumo é a energia efetivamente utilizada ao longo do tempo, medida em kWh e refletida na conta de luz.
- Demanda é o quanto de potência o sistema precisa estar preparado para fornecer simultaneamente, no pior cenário previsível.
A distribuidora de energia, assim como os projetos elétricos, não trabalha com “médias”, mas com picos prováveis. É isso que garante que cabos, barramentos, disjuntores e transformadores não sejam sobrecarregados.
Uma analogia:
não se dimensiona uma ponte pela média de carros que passam por dia, mas pelo tráfego máximo esperado em horários críticos.
Por que ar-condicionado e carregadores mudam o jogo
Equipamentos como chuveiros elétricos sempre existiram nos projetos prediais. Eles têm alta potência, mas uso curto e intermitente. Por isso, historicamente, os fatores de simultaneidade aplicados a esse tipo de carga são baixos.
Já o ar-condicionado e, principalmente, os carregadores de veículos elétricos têm comportamento diferente:
- Potência relevante (3,5 kW, 7,4 kW ou mais);
- Tempo de uso prolongado, muitas vezes por horas;
- Uso concentrado em horários semelhantes (noite e início da madrugada);
- Alta probabilidade de uso simultâneo entre várias unidades.
Do ponto de vista elétrico, isso significa demanda mais alta e mais previsível, exatamente o oposto de cargas intermitentes.
Substituir mentalmente “um chuveiro que não uso” por “um carregador” pode parecer lógico, mas não é tecnicamente equivalente.
O erro das medições pontuais
Tenho visto, com certa frequência, laudos e pareceres baseados em medições de consumo realizadas por alguns dias com analisadores de energia. A ideia é verificar se “sobra potência”.
O problema é que esse tipo de medição fotografa um instante, não a realidade futura.
Ela não considera, por exemplo:
- Sazonalidade (verão x inverno);
- Clima atípico (dias frios ou amenos);
- Apartamentos vazios ou moradores viajando;
- Mudança de hábitos ao longo do tempo;
- Crescimento natural da adoção de novos equipamentos.
É o mesmo erro de avaliar o trânsito de uma avenida medindo o fluxo em um domingo de manhã. O dado existe, mas não serve para dimensionamento.
Normas técnicas e critérios das distribuidoras não se baseiam em medições pontuais, mas em cálculo de demanda, com fatores de simultaneidade e cenários previsíveis.
Condomínio não é soma de decisões individuais
Outro ponto crítico: condomínios são sistemas coletivos.
Mesmo quando um equipamento é ligado após o medidor individual, a infraestrutura que o alimenta, padrão de entrada, barramentos, alimentadores, é compartilhada.
Autorizar um caso isolado cria precedente. Em pouco tempo, aquilo que parecia exceção vira regra, e a instalação passa a operar fora das condições para as quais foi projetada.
É exatamente por isso que as normas e as distribuidoras exigem que qualquer aumento de carga ou alteração relevante no perfil de consumo seja previamente analisado.
O que a engenharia responsável faz
Uma análise técnica correta de mudança de demanda não se baseia em “achismos”, medições rápidas ou declarações de uso atual. Ela envolve, no mínimo:
- Levantamento das cargas existentes;
- Classificação das cargas por tipo e perfil de uso;
- Aplicação de fatores de demanda e simultaneidade adequados;
- Análise da capacidade do padrão de entrada e dos alimentadores;
- Verificação de aderência às normas técnicas e às regras da distribuidora;
- Elaboração de memorial de cálculo, claro, rastreável e auditável.
Esse tipo de estudo permite responder, com base técnica, perguntas fundamentais:
- O condomínio suporta essa nova carga hoje?
- Suporta se mais unidades adotarem o mesmo equipamento?
- Haverá necessidade de aumento de demanda junto à distribuidora?
- Quais adequações são técnicas e economicamente mais corretas?
Conclusão: consumo muda, responsabilidade também
A eletrificação de novos equipamentos é um caminho natural e irreversível. O problema não é a tecnologia, mas a forma como ela é incorporada.
Decisões baseadas em medições pontuais, suposições ou laudos simplificados podem parecer mais rápidas ou baratas no curto prazo, mas frequentemente geram riscos técnicos, retrabalhos e conflitos no futuro.
Na TURIAM Engenharia, tratamos mudança de demanda como o que ela realmente é:
uma decisão técnica, normativa e institucional, que precisa ser embasada, documentada e segura.
Engenharia não é sobre “ver se dá”.
É sobre saber, com clareza, se dá, até quando dá e em que condições dá.
Luiz Meirelles, engenheiro eletricista com mais de 20 anos de experiência em gestão de negócios, vendas técnicas e pós-venda nos setores de engenharia, construção e equipamentos industriais.
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