Termografia e decisões empresariais: mais que boas ferramentas, é preciso expertise

Há alguns meses, estive em uma grande instituição para realizar a inspeção das instalações elétricas. Como parte do procedimento, pedi toda a documentação técnica pertinente, e entre os arquivos recebi um laudo de manutenção preventiva da cabine primária, a entrada de energia em 13.200V.

De imediato, pensei: “Ótimo, estão cuidando do que poucos costumam cuidar.” A manutenção em cabines primárias muitas vezes é negligenciada, então ver que existia um laudo já era um sinal positivo.

Mas ao analisar o relatório com mais calma, um detalhe me chamou a atenção: a termografia das instalações.

Para quem não é do setor elétrico, a termografia é uma técnica que utiliza câmeras térmicas (termovisores) para identificar pontos quentes na instalação. Ela revela falhas ocultas: conexões frouxas, sobrecargas, desequilíbrios, enfim, aquilo que não se vê a olho nu, mas que a temperatura denuncia.

O relatório era visualmente impecável: imagens nítidas, equipamentos identificados, tudo certo… até que percebi a data e o horário da inspeção: 27 de dezembro, às 17h00.

Tratava-se de uma instalação com alta sazonalidade na demanda de energia, entre Natal e Ano Novo, a carga elétrica estava quase toda desligada. O consumo naquele momento era mínimo, muito inferior ao padrão de operação real da planta.

A conclusão? O equipamento utilizado era moderno, o relatório estava bem apresentado, mas a decisão de executar a termografia naquele momento invalidou sua utilidade prática.

Não havia carga suficiente para que o sistema revelasse seus verdadeiros pontos críticos.


A ferramenta certa, no contexto errado, entrega resultados vazios

Esse episódio me fez refletir sobre um paralelo com o mundo da gestão e dos negócios.

Muitas empresas adotam ferramentas sofisticadas, dashboards, ERPs, CRMs, KPIs etc. e esperam, com isso, tomar decisões melhores.

Mas o que se esquece é que sem o momento certo, sem análise crítica, sem entendimento do ambiente, até a melhor ferramenta pode levar a um diagnóstico ilusório.

Executar uma termografia sem carga é como fazer um plano estratégico sem ouvir o cliente, ou conduzir uma pesquisa de clima no meio das férias coletivas. É uma simulação que mascara a realidade.


Técnica é mais do que ferramenta, é aplicação com discernimento

Em engenharia ou em gestão, a diferença não está só no que você usa, mas em como e quando você aplica.

Termovisores modernos não substituem experiência.
PowerPoint com KPI bonito não substitui leitura de contexto.
Relatórios não substituem escuta ativa, chão de fábrica, envolvimento real.


Conclusão

Boas ferramentas, quando aplicadas sem técnica ou no momento errado, viram ruído.

Em engenharia ou em gestão, é o contexto que revela os pontos críticos.

Saber quando e como olhar é o que transforma dados em decisões, e tecnologia em resultado.


Luiz Meirelles, engenheiro eletricista, diretor e responsável técnico da TURIAM. Possui diversas especializações em baixa e média tensão e mais de 20 anos de experiência em gestão de negócios nos setores de engenharia e construção.

Para baixar esse artigo em PDF: Clique aqui!


Comentários

Deixe um comentário