SPDA e Gerenciamento de Risco: Só opinião não basta, é preciso conhecimento técnico

Quando falamos em segurança predial, muitas vezes pensamos em câmeras, portarias e sistemas de alarme. Mas existe um risco silencioso e de alto impacto que precisa ser tratado com seriedade: o das descargas atmosféricas, popularmente conhecidas como raios.

É aqui que entra o conceito de gerenciamento de risco.
De forma simples, gerenciamento de risco é um processo estruturado que avalia a probabilidade de que um evento indesejado ocorra (no caso, um raio atingir a edificação) e as consequências que isso pode gerar. Ele combina dados técnicos, características da edificação e estatísticas de descargas atmosféricas para indicar se o prédio precisa ou não de um Sistema de Proteção contra Descargas Atmosféricas (SPDA) e, se precisar, qual o nível de proteção necessário.

Como era antes e o que mudou com a norma

Em versões ou normas anteriores, a decisão sobre a necessidade de SPDA muitas vezes era baseada em critérios simplificados: altura do prédio, tipo de uso, localização etc.
Hoje, com a atualização da NBR 5419:2015, em especial a parte 2, o critério deixou de ser genérico e passou a ser calculado de forma técnica e personalizada por meio do gerenciamento de risco.

Isso significa que não basta mais olhar para o prédio e “achar” se ele precisa ou não de SPDA: é necessário realizar um cálculo formal, com base em dezenas de variáveis.

Os critérios avaliados

O gerenciamento de risco para SPDA leva em consideração mais de 20 variáveis, agrupadas em quatro grandes áreas:

  1. Características da estrutura: altura, dimensões, materiais construtivos.
  2. Uso da edificação: residencial, comercial, o que é armazenado etc.
  3. Ocupação e vulnerabilidade: quantidade de pessoas, presença de equipamentos sensíveis, continuidade de operação (por exemplo hospitais).
  4. Ambiente externo : densidade de descargas atmosféricas na região, presença de edificações vizinhas, localização.
Ng Sudeste. Fonte: NBR 5419:2015

Um ponto fundamental é a densidade de descargas atmosféricas (Ng), dada pela quantidade de descargas por km² por ano.
Exemplo: no litoral paulista, a densidade de raios é relativamente baixa. Já no interior do estado, é muito mais alta. Assim, um mesmo edifício poderia não precisar de SPDA no litoral, mas exigir obrigatoriamente sua instalação se estivesse no interior.

E como curiosidade, no momento os critérios do gerenciamento de risco estão sendo avaliados para atualização.

Obrigatoriedade vs decisão estratégica

O resultado do gerenciamento de risco pode apontar que a edificação:

  • Precisa de SPDA, indicando também o nível de proteção necessário (quanto mais crítico o uso, maior o nível de proteção exigido).
  • Não precisa de SPDA segundo a norma.

Importante destacar: mesmo que o cálculo aponte que o SPDA não é obrigatório, nada impede que a edificação opte pela instalação como medida adicional de segurança e valorização do patrimônio.

O perigo da desinformação

Na prática, ainda é comum encontrar situações em que gestores e administradores das edificações recebem opiniões de pessoas não capacitadas, dizendo se a edificação precisa ou não de SPDA. Em alguns casos, até oferecem a instalação do sistema sem qualquer projeto ou estudo técnico.

Isso é um risco grave: sem gerenciamento de risco, o sistema pode ser subdimensionado (não protege de fato), superdimensionado (gera custos desnecessários) ou mal projetado (pode agravar os riscos). Além disso, em caso de sinistro, a falta de estudo formal e projeto pode trazer responsabilidades jurídicas para os gestores.

As consequências vão desde questões financeiras com custos desnecessários, prejuízos estruturais até o risco a vida com as descargas atmosféricas e suas consequências, como incêndio.

Conclusão

O gerenciamento de risco não é apenas uma exigência normativa, mas um instrumento de decisão estratégica para gestores e administradores.
Ele garante que cada edificação tenha exatamente o nível de proteção necessário, baseado em dados técnicos e não em opiniões subjetivas.

Em segurança, achismos custam caro. A análise técnica traz clareza, confiança e proteção real.

Luiz Meirelles, engenheiro eletricista, diretor e responsável técnico na TURIAM. Com mais de 20 anos de experiência em gestão de negócios, vendas técnicas e pós-venda nos setores de engenharia, construção e equipamentos industriais.

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