Em muitos projetos e inspeções de sistemas de proteção contra descargas atmosféricas (SPDA), a atenção se concentra quase exclusivamente no mastro captor, nas descidas e no aterramento. Porém, há uma parte fundamental que ainda é negligenciada: as Medidas de Proteção contra Surtos (MPS).
E aqui está o ponto: em termos de probabilidade, é muito mais comum um surto danificar equipamentos do que uma descarga direta atingir a edificação. Ou seja, se o objetivo é preservar equipamentos, sistemas e continuidade operacional, as MPS são tão essenciais quanto o próprio SPDA e, em muitos casos, são a primeira exigência prática.
SPDA vs MPS: entendendo as diferenças
O SPDA tem a função de proteger a edificação contra descargas diretas quando o raio atinge a estrutura.
Já as MPS atuam também contra descargas indiretas, que ocorrem quando um raio atinge um prédio vizinho, o solo próximo ou, mais frequentemente, uma linha de energia ou telecomunicação que abastece o imóvel.
Essa distinção é importante: um surto causado por descarga direta carrega muito mais energia e é potencialmente mais destrutivo. Já o surto de uma descarga indireta, embora geralmente menor em energia, é bem mais frequente e ainda assim pode causar grandes prejuízos.
O que é um surto e de onde ele vem
Segundo a NBR 5419-4:2015, um surto é um distúrbio transitório que se manifesta como sobretensão e/ou sobrecorrente, podendo ter origem:
- Externa: descarga atmosférica que atinge diretamente ou indiretamente redes de energia e telecomunicação.
- Interna: manobras de chaveamento, partidas de motores e outros eventos dentro da própria instalação.
A propagação desses surtos até os equipamentos pode ocorrer por indução eletromagnética e entender isso é fundamental para definir as barreiras de proteção.
Princípios das Medidas de Proteção contra Surtos
A norma introduz o conceito de Zonas de Proteção contra Raios (ZPR), que funcionam como barreiras sucessivas, reduzindo a severidade dos surtos à medida que a energia se aproxima dos equipamentos sensíveis.
As MPS incluem três ações principais:
- Blindagem – física ou eletromagnética, para reduzir a energia induzida.
- Equipotencialização – interligação de massas metálicas e condutores de proteção, evitando diferenças de potencial perigosas.
- Uso de DPS (Dispositivos de Proteção contra Surtos) – a medida mais conhecida e visível, responsável por desviar o surto para o sistema de aterramento.
O papel e a importância do DPS
O DPS é o principal componente prático das MPS. Ele atua como uma “válvula de escape”, desviando a sobretensão para a terra antes que ela chegue aos equipamentos.
Existem três tipos principais, definidos pela norma:
- Classe I – suporta correntes de surto de descargas diretas (onda 10/350 μs), instalado na entrada principal.
- Classe II – para surtos induzidos ou com energia reduzida (onda 8/20 μs), instalado em quadros de distribuição.
- Classe III – proteção fina, instalada próxima a equipamentos sensíveis.
Mas atenção: DPS é um dispositivo de desgaste. Após certo número ou intensidade de surtos, ele chega ao fim da vida útil e precisa ser substituído. Muitos modelos possuem um visor que indica quando isso ocorre.
Instalação e coordenação corretas
Um DPS mal dimensionado ou instalado apenas transmite falsa sensação de segurança. A norma exige que:
- Os condutores sejam curtos e retilíneos para reduzir efeitos da indução.
- O sistema de aterramento seja eficiente e integrado.
- Haja coordenação entre os diferentes estágios de DPS para que um não sobrecarregue o outro.
Essa coordenação garante que a energia seja dissipada gradualmente, reduzindo o risco de falha.
Inspeção e manutenção: a parte esquecida
Assim como o SPDA, as MPS devem ter um plano de gerenciamento, com inspeções periódicas. A verificação visual dos DPS (indicador de falha) é simples, mas essencial. Um dispositivo degradado não cumpre sua função e, em caso de surto, os equipamentos e a instalação ficam expostos.
Conclusão: proteção real vai além do mastro captor
A proteção contra surtos não é luxo nem opcional. É uma exigência para quem busca segurança, continuidade de operação e preservação de investimentos em equipamentos.
Na TURIAM Engenharia, seguimos rigorosamente a NBR 5419-4:2015, projetando e instalando MPS de forma técnica e responsável, sempre com documentação e laudos claros.
Assim como no laudo SPDA, nosso objetivo é que síndicos, administradores e gestores tenham informação segura para decisões seguras evitando custos desnecessários e riscos que poderiam ser prevenidos.
Luiz Meirelles, engenheiro eletricista, diretor e responsável técnico na TURIAM. Com mais de 20 anos de experiência em gestão de negócios, vendas técnicas e pós-venda nos setores de engenharia, construção e equipamentos industriais.
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